A montagem da vida de Kurt Cobain no Cinema

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Kurt Cobain (1967-1994) é o vocalista e guitarrista da banda grunge conhecida como Nirvana e um dos músicos mais emblemáticos e importantes da história da música popular massiva, ou seja aquela ligada à indústria cultural e voltada ao entretenimento. Sua vida e carreira musical são mostradas no documentário “Cobain: Montage of Heck” (EUA, 2014) através de um rico material, composto por filmes em super 8, além de fotos e diários, gravações de áudio a partir de fitas cassetes e de rolo, fornecido pela família, esposa e amigos do cantor. O material serviu para montar uma visão privilegiada de Kurt Cobain, desde a sua infância em uma pequena cidade dos Estados Unidos, passando pela adolescência, o início da fase adulta e surgimento do Nirvana, até o seu suicídio aos vinte e sete anos de idade. 

O documentário “Cobain: Montage of Heck” começa com depoimentos da mãe de Kurt narrando como conheceu o marido e engravidou. Ela destaca que a infância do filho foi calma e pacata na pequena cidade interiorana de Aberdeen, nos Estados Unidos. Há fotografias dos aniversários de três e quatro anos, além de imagens em super 8 do jovem Kurt então com quatro anos tocando uma guitarra de brinquedo. Da infância tranquila, passa-se para a pré-adolescência e adolescência, ambas problemática, repleta de conflitos com os pais, escola e amigos. O destaque fica por conta da personalidade desenvolvida pelo músico a partir do sentimento de rejeição em relação aos pais, já que ele migrava com frequência para casa de diversos parentes devido aos conflitos familiares. 

O filme destaca que a fonte da criatividade Kurt era a sua personalidade: inquieta, obscura e cheia de angústias. A estreita relação com a música surge na adolescência como uma forma de fuga, tendo o gênero Punk como ponto de partida, já que a música além de expressar e dar um significado para os anseios de Kurt, poderia ser executada por ele. Assim, decide montar uma banda, convida, inicialmente, o amigo Krist Novoselic para o baixo, em seguida, entram em contato com diversas gravadoras de pequeno porte, até que são aceitos pela Sub Pop da cidade de Seatle, em 1988. No ano início do ano seguinte, lançam o primeiro álbum de estúdio denominado “Bleach”, partem para shows em pequenos lugares. 

O documentário destaca o lançamento, em 1991, do álbum “Nevermind”, um dos mais impactantes de todos os tempos, com destaque para as músicas "Smells Like Teen Spirit", "In Bloom" e "Come as You Are". Com o lançamento do disco, os músicos foram alçados à fama instantânea, mesmo não estando preparados emocionalmente e psicologicamente para o estrelato dentro da indústria do entretenimento, repleta de obrigações e cordialidade com compromissos, entrevistas, contratos, etc. O impacto da fama sobre Kurt é imediato, sua inabilidade é evidente, explícita. Passa a ter comportamentos depressivos e a se relacionar com a cantora Courtney Love, momento em que seu vício em heroína se intensifica. Da união com Love, nasce a filha do casal: Frances Bean Cobain. 

A gestação e o nascimento de Frances é polêmica, como o casal Kurt e Love consumiam heroína com frequência, a mídia da época destacava o possível impacto que o consumo da droga poderia ter sobre a criança, que ao nascer teve a guarda retirada dos pais por um curto período de tempo. Cenas dos shows do Nirvana no Brasil dentro do Festival Hollywood Rock são mostradas, o destaque é a apresentação do dia 23 de janeiro de 1993 no Rio de Janeiro, na qual um insano Kurt em estado de transe cospe na câmera de filmagem e depois passa a se masturbar. As apresentações no Brasil já eram um indício da instabilidade de Kurt, que usava as palavras "I hate myself and I want to die" (“Eu me odeio e quero morrer”) como forma de expressar o seu estado emocional. Elas se concretizam pouco tempo depois. 

No final do documentário, não há o destaque para os últimos dias de Kurt ou o seu suicídio, o diretor prefere destacar a gravação do último projeto do Nirvana, o “MTV Unplugged in New York”. A produção ganha qualidade quando os áudios de Kurt ganham corpo a partir de animações. Assim, a palavra se materializa e ganha forma. As passagens dos diários particulares e os desenhos do músico recebem um tratamento especial com efeitos visuais, o que possibilita não apenas entrar na intimidade, mas também na mente de Kurt. 

A história da música popular massiva é circular, partindo de formas mais simples para formas mais complexas, em um eterno retorno. Assim, do gênero Rock, parte-se para o Folk rock, para o Art rock, depois para o Heavy metal, até o Rock Progressivo, ponto mais complexo, para depois voltar-se à simplificação com o Punk rock. Dentro desta lógica, o Grunge surge no final da década de 1980, tendo o seu ápice no início da década de 90 como uma forma de simplificar a música pop. O documentário “Cobain: Montage of Heck” não se baseia apenas em depoimentos de familiares e amigos, há um rico material, o diretor Brett Morgen teve acesso privilegiado ao vasto material da família do cantor, o que possibilitou não apenas contar a história de Kurt Cobain, mas também do Grunge.

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