Miss Violence: Senhorita Violência

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Miss Violence” (2013) é um filme grego dirigido pelo cineasta Alexandro Avranas, sendo o grande ganhador do Leão de Prata, prêmio do Festival de Cinema de Veneza para o melhor diretor, em 2013. O filme ata as duas pontas da cultura e da sociedade grega: a clássica e a atual, ou seja, aquela que no seu esplendor conseguiu criar as bases da cultura ocidental com a filosofia, literatura, e outras expressões artísticas; e esta que expõe o que de pior há no ser humano e, consequentemente, na sociedade. Partindo do micro (família) para o macro (sociedade), o diretor expõe temas complexos, tais como suicídios, incesto, pedofilia e prostituição infantil. 

No interior de um apartamento, uma porta pintada de branco se abre, duas adolescentes saem do quarto, vão para a sala, a família está reunida: um pai-avô, a avó, uma mãe, com suas três filhas, duas adolescentes e uma criança, além de um filho menor. O clima é de festa, festejam ao som de uma música alegre, a aniversariante está com um semblante triste na foto oficial da família, está completando onze anos. A festa é padrão, há o bolo de pasta americana, colheres rosa e copos coloridos, alguns dançam, ao fundo ouve-se a música “Dance me to the end of love”, de Leonard Cohen. Angeliki, a aniversariante, vai até a sacada, sorri, olha para a câmera, se joga, morta está, sobem os créditos iniciais. 

O prólogo com a morte de Angeliki ocorre em três minutos de filme, de uma festa de tom alegre à garota no chão com uma possa de sangue em volta da cabeça. A alegria dura poucos minutos, agora começa a tentativa do espectador para descobrir o porquê da garota ter se suicidado no seu aniversário de onze anos. Todavia, para que o enredo do filme ganhe sentido, é preciso entender a dinâmica da família e as relações de poder e de dominação que se estabelecem no ambiente familiar. Na trama, alguns indivíduos de fora tentam compreender e achar as motivações de Angeliki, como investigadores, funcionários da escola, ou mesmo a vizinha, mas a resposta é construída aos poucos, seja pelo desenrolar do enredo ou com o diálogo do espectador com a narrativa. 
 
No filme, a estrutura familiar é arcaica e padrão, sendo patriarcal, há a figura do avô-pai, que controla e detém o poder sobre os demais membros da família, há ainda a mãe passiva e observadora, que tudo sabe e tudo vê. Os outros ramos da genealogia são compostos pela filha, que por sua vez possui quatro filhos e está grávida. Todos vivem sob o mesmo teto e sobre as mesmas regras de convivência familiar. A única figura masculina é a do avô-pai, com o suicídio de Angeliki, restam apenas três mulheres e o pequeno Philippos. Ainda assim, não há respostas para a terceira mulher em uma linha de quatro mulheres da família ter se suicidado. Mas, ainda há as outras mulheres e a avó. 


O filme trata de temas demasiados humanos e de complexidade social. O primeiro deles é o suicídio, que acaba perdendo força conforme o enredo se desenvolve, ele irá se mostra como libertação e negação de um destino, o que na tragédia clássica grega era algo impossível. Em seguida, nota-se que a dominação do avô-pai é baseada também na relação sexual com as suas filhas, destacando-se, logo, a questão do incesto, de modo que a sua filha Eleni, possui três filhas que podem ser do pai-avô. 

O incesto é confirmado apenas quando se descobre que o pai-avô prostitui as mulheres da família, na cena mais impactante do filme, quando a adolescente Myrte é levada e acompanhada pelo patriarca da família para se prostituir em uma lavanderia, onde três homens, em sequência, fazem sexo de forma agressiva com a garota, dois funcionários, e, por último, o patriarca. Do incesto, passa-se para a prostituição infantil, sendo justamente nesta passagem que se obtêm a resposta do por que do suicídio. 

O suicídio de Angeliki foi a negação do futuro que a aguardava, que também foi, ao final, destinado a filha mais nova, de aproximadamente oito anos, quando o seu pai-avô a leva para um velho senhor, que paga para ter relações com a virginal garota. A pedofilia ganha destaque no filme. Com os temas abordados, tem-se que a família como núcleo social agregador é decadente, suas estruturas são podres, da aparência harmoniosa e perfeita, há camadas mais profundas de podridão e contradições humanas e sociais. 

Na tragédia grega, o destino é algo inevitável, mas há a catarse, um sentimento de dor e piedade provocado no espectador. O que se tem ao final do filme “Miss Violence” é o estranhamento e questionamento, primeiro do homem, se ele seria bom como afirma o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, e depois das estruturas sociais patriarcais, que submetem a figura feminina à dominação masculina. Por fim, o êxtase (do grego ékstasis) das mulheres é o mesmo do espectador, que entra em catarse com o fim trágico do patriarca. A porta se fecha: êxodo.

Trailer do Filme:

2 comentários:

Anônimo disse...

Incrível sinopse, parabéns! Acabei de assistir o filme e o modo peculiar de ir mostrando com pequenos detalhes a podridão de uma suposta família perfeita é incrível. Filme tenso, mas uma obra incrível.

Breno Rodrigues de Paula disse...

Sim, o filme é fantástico, gostei bastante, até adicionei uma das atrizes no facebook, ela é bem legal.