A ‘Melancolia’ de Lars von Trier

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O diretor dinamarquês Lars von Trier (1956-) é o principal cineasta da atualidade, junto com o austríaco Michael Haneke (1942-). A filmografia do cineasta dinamarquês é uma busca constante de experimentação da linguagem cinematográfica e o incessante anseio da expressão artística individual através do cinema, seja nos tempos do movimento Dogma 95, na década de 1990, ou ainda com o seu filme ‘Melancolia’ (Melancholia, Dinamarca, 2011). Com ele, Lars conseguiu o status de persona non grata no Festival de Cinema de Cannes, mas fez um filme genial, dialogando com a psicologia, pintura e com a música. 

Melancolia é um estado, uma relação conflituosa com o meio, gerado por um antagonismo. Ela é um sentimento psicossocial, já que o estado psicológico influencia as relações sociais e vice-versa. O termo e o conceito de melancolia foram cunhados e desenvolvidos pelos gregos, sendo discutidos pelo “pai da medicina” Hipócrates no século V a.C. O indivíduo melancólico perde o entusiasmo e a vontade de se relacionar socialmente, tornando-se um ser socialmente inativo. 

No filme ‘Melancolia’, tem-se a melancólica história de Justine (Kirsten Dunst), seu casamento e a relação familiar com mãe, pai, o cunhado e irmã (Charlotte Gainsbourg). Ela oscila entre pequenos e curtos momentos de euforia com estados constantes de melancolia. Vivendo em um mundo de aparências e obrigações, seja para criar um slogan para uma campanha publicitária, Justine ainda tem que lidar com as suas emoções, conseguindo tranquilidade apenas em contato com a água, seja na banheira ou, como coloca Lars (em cenas metafóricas) no cartaz, em um riacho. Mas, o planeta Melancolia está em rota de colisão com a Terra, o que gerará a destruição do planeta. 

O filme se inicia com um prelúdio de aproximadamente dez minutos com a introdução do tema da obra com cenas em câmera lenta, mostrando a colisão do planeta Melancolia, que estava escondido atrás do sol, com o planeta Terra. Justine caminha, um cavalo cai, o espaço sideral é mostrado. Os planos são belos, plasticamente perfeitos, com cores que dialogam com a obra do pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1918), o amarelo se contrasta com o verde. Há ainda um diálogo com o filme ‘2001: uma odisseia no espaço’ (1968) do diretor Stanley Kubrick (1928-1999) ou ainda com o seu contraponto soviético ‘Solaris’ (1972), do diretor Andrei Tarkovski (1932-1986). 

Em ‘2001: uma odisséia no espaço’, há a utilização da música clássica no “prólogo dos macacos” com a música ‘Assim falou Zaratustra’, de Richard Strauss, baseada na obra homônima do filósofo alemão Friedrich Nietzsche, mostrando a evolução humana de um estágio primitivo para um mais evoluído: do osso à estação espacial. Em ‘Melancolia’, o uso da ópera ‘Tristão e Isolda’, do compositor alemão Richard Wagner, cria um ritmo lento e apresenta o tom do filme: o trágico. O fim é inevitável, Melancolia está em rota de colisão, mas não há uma histeria coletiva, há cenas belas, calmas, como a música de Wagner. 

Lars von Trier é um cineasta inquieto, sempre busca utilizar o cinema como uma forma de expressão artística tendo a linguagem cinematográfica como elemento e o filme como produto. Em ‘Melancolia’, ele funde gêneros cinematográficos, em específico a ficção científica com o drama, pois, no filme, o planeta Melancolia está preste a colidir com a Terra. No entanto, o drama particular e a melancolia das personagens são o mais importante. O diretor também funde gêneros em ‘Dançando no escuro’ (2000), mais especificamente o musical com o drama, neste caso um drama social devido às contradições do “american way of life”. 
O filme ‘Melancolia’ é dividido em duas partes: na primeira “Justine” tem-se a melancolia do ser humano e as relações sociais em espaços fechados, no caso em um casamento, o que evidencia os conflitos familiares e sociais pré-existentes. A primeira parte se assemelha a proposta do filme ‘Festa em família’ (1998) do também diretor dinamarquês e membro do Dogma 95 Thomas Vinterberg, no qual os conflitos familiares são expostos em um jantar familiar. Na segunda parte “Claire”, a melancolia é causada pela iminência da colisão do planeta Melancolia com a Terra. Claire é a irmã de Justine. 

Os filmes de Lars von Trier são antes de tudo teses e expressões artísticas de seu criador. Tese porque uma ideia e um ponto de vista são defendidos e obras de arte são feitas. Em ‘Os Idiotas’ (1998), Trier busca demonstrar como se livrar da sociedade capitalista e dos dogmas burgueses com “atos idiotas”. Já em ‘Dançando no escuro’ (2000) e ‘Dogville’ (2003) busca demonstrar e analisar as contradições do pensamento psicossocial estadunidense. Em “Melancolia”, o diretor coloca a discussão da melancolia provocada por estados internos ou por forças externas. O que se tem é a oposição de um estado momentâneo de alegria com a essência melancólica do ser, como também demonstrada pela poesia do poeta francês Charles Baudelaire nos seus quadros parisienses, que deram início à modernidade artística no auge do capitalismo.

Trailer do filme 'Melancolia'

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