“Boyhood”: Um Filme Sobre o Tempo

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A mudança das estações, o envelhecimento do corpo são as duas principais formas de percepção da passagem do tempo. Elemento que fascina, angustia e encanta a mente humana. Há a tentativa de compreendê-lo, domá-lo, manipulá-lo, na maioria das vezes sem êxito, com exceção da Arte e, principalmente, do Cinema que pode retê-lo. O filme “Boyhood: da infância à juventude” (EUA, 2014) retêm o tempo na sua duração, o diretor estadunidense Richard Linklater (1960-) filma a vida de um garoto durante doze anos, dos seus sete aos dezoito anos de idade. Entre 2002 a 2013, o elenco se reunia uma vez por ano, durante três a quatro dias, para filmar a trama e mostrar as suas transformações. 

No início do filme “Boyhood: da infância à juventude”, Mason (Ellar Coltrane) é um garoto de sete anos que mora com a irmã Samantha (Lorelei Linklater) e com a mãe Olivia (Patricia Arquette) em uma casa simples em alguma cidade do estado do Texas. O seu pai Mason (Ethan Hawke) havia deixado a família alguns anos antes. Seus setes anos são marcados pela mudança de cidade e a tentativa de compreensão do mundo a sua volta. Ao final do filme, Mason tem dezoito anos e está nos seus primeiros dias na faculdade e na fase adulta, morando sozinho em uma nova cidade, com novas pessoas e novas experiências. 

Como é preciso atar as duas pontas, o filme mostra de forma linear a partir de um enredo simples, sem tramas ou jogos temporais, a vida de Mason e de sua família. O seu pai o visita no seu oitavo ano. Com nove anos ele vai a uma aula da mãe, que está tentando se formar em psicologia, e percebe a relação dela com o professor. Vai ao lançamento do livro “Harry Potter e o enigma do príncipe”. No ano seguinte, sua mãe se casa com o professor universitário, Mason passa um final de semana na casa do pai. Com onze anos, há o início da atração e do descobrimento da sexualidade, na escola recebe um bilhete de uma pretensa namorada, Olivia se separa. Aos treze anos, Mason acampa com o pai.

Aos quatorze anos, sua mãe se torna professora universitária, sua irmã adolescente. Mason está na oitava série e bebe a primeira cerveja. No seus aniversário de quinze anos há um bolo, festa, e a visita do pai, o contato com os avós maternos em uma típica casa e família texana. Com dezesseis, Mason se encanta pela fotografia, está entre a Arte e a obrigação de fotografar, tendo que se relacionar com um novo padrasto veterano da guerra do Iraque. No ano seguinte, arruma trabalho em uma lanchonete e visita a irmã na faculdade, namora o seu grande amor da adolescência. Por fim, com dezoito anos, termina o colegial, vai para a faculdade. 

O filme mostra a vida de Mason a partir de dois importantes períodos: a infância e a juventude. O primeiro é o período de descobertas, é a percepção do mundo ao redor de um ponto de vista de baixo para cima, o que o diretor coloca como recorrente através da câmera alta e câmera baixa, alternando com frequência o plano e contra-plano, o que reforça o ponto de vista da personagem. As ações dos adultos condicionam a de Mason, cabe-lhe apenas segui-las. Na adolescência, Mason constrói a sua identidade, seja afirmando uma aparência com cabelos longos ou unhas pintadas, ou mesmo negando alguma prática, ou ainda expressando-se a partir da fotografia. 

O diretor Richard Linklater mostra a passagem do tempo através das transformações físicas que ele provoca nas personagens: no envelhecimento da pele, na transformação do cabelo, alternando em longos e curtos, como também na direção de arte com objetos de cenas típicos e representativos de cada ano, seja um computador, um console de videogame, ou mesmo acontecimentos históricos para os Estados Unidos como a invasão do Iraque em 2003, mesmo as eleições presidenciais de 2008, que elegeram Barack Obama como presidente. Outro elemento que situa historicamente a narrativa é a trilha sonora com músicas como “Yellow” do Coldplay, “She’s long gone” da banda The Black Keys, e músicas de bandas como The Flaming Lips, Wilco e Arcade Fire

Ver as personagens envelheceram durante doze anos ao longo do filme “Boyhood: da infância à juventude” é uma experiência para o espectador, pois o tempo está condensado e apreendido. O cineasta francês François Truffaut (1932-1984) também mostra a passagem da vida do seu personagem Antoine Doinel, interpretado pelo ator Jean-Pierre Léaud (1944-), ao longo de cinco filmes: “Os Incompreendidos” (1959), “O Amor aos Vinte Anos” (1962), “Beijos Proibidos” (1968), “Domicílio Conjugal” (1970) e “Amor em Fuga” (1979). Assim, pode-se acompanhar a vida de Antoine Doinel dos seus quinze anos até os trinta e poucos anos, apreendendo o tempo e diluindo-o em cinco filmes. 

O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) formulou o conceito de “la durée”, ou duração, no qual o tempo é caracterizado pela duração de momentos temporais que compõem uma experiência humana. O filme “Boyhood: da infância à juventude” mostra a duração, a natureza própria do tempo enraizada no envelhecimento do corpo, nas experiências e nas relações pessoais humanas. O Cinema é uma Arte temporal, Richard Linklater fez um filme sobre o tempo, o tempo presente, a vida presente, mas contínuo, sendo a matéria do filme o próprio tempo.

Trailer do filme

Elas São As Melhores

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Do cinema sueco originou-se um dos maiores cineastas de todos os tempos: Ingmar Bergman (1918-2007), o grande documentarista Peter Cohen (1946-) e Lukas Moodysson (1969-), um dos cineastas mais interessantes do recente século XXI. Moodysson é um dos maiores expoentes do cinema nórdico da atualidade com uma cinematografia independente que dialoga com um vasto campo de referência culturais, da música à literatura underground, à questões políticas e sociais com narrativas que remontam às décadas de 1970, 80 e 90, com filmes como “Bem-vindos” (2000), “Para Sempre Lilya” (2002), “Corações em Conflito” (2009) e “Nós Somos as Melhores!” (2014), fazendo um panorama da cultura sueca em todos os seus aspectos. 

Com o filme “Bem-vindosLukas Moodysson ganhou projeção internacional ao mostrar uma comunidade hippie na Suécia em 1975. Em uma casa, diversos indivíduos com ideais socialistas libertários tentam colocar em prática relações socialistas nos planos de convivência cotidiana, amorosa e interpessoal. Questões como a liberdade dos padrões burgueses é discutida de forma simples. Há a tentativa frustrada do poliamor, no qual os indivíduos, independente do sexo e da orientação sexual, podem ter múltiplos parceiros, o que se mostra como algo complicado. A casa é uma representação micro do universo macro da sociedade da época, polarizada entre o desejo interno de novos padrões de relações sociais contra os valores da sociedade burguesa. 

Na produção “Para Sempre Lilya” (Lilja 4-ever, 2002), Moodysson trabalha com temas mais profundos relacionados à prostituição infantil e ao suicídio. O filme narra a história de Lilya, uma jovem de 16 anos que se muda da periferia da antiga União Soviética para a Suécia, sendo obrigada a se prostituir, passa a presenciar e sentir o que de pior a essência humana possui, sendo transportado para o espectador com a recorrência da câmera subjetiva, mostrando o ponto de vista de Lilya. O objetivo do diretor é mostrar o que de podre há por trás da aparência de perfeição da moral da sociedade nórdica e, principalmente, sueca. Lilya é uma garota meiga, pura, que apenas quer ser feliz, seja brincando com as suas asas ou com o seu amigo Volodya. 

Com o filme “Corações em Conflito” (Mammoth, 2009) Moodysson faz a sua primeira produção com filmagens fora da Suécia, contando com atores de projeção internacional como o mexicano Gael García Bernal (1979-) e a atriz estadunidense Michelle Williams (1980-). No filme, eles são um casal com profissões bem sucedidas tendo como prioridade as suas respectivas carreiras. A família é uma representação micro da macro organização social, sendo ela o reflexo da sociedade. No entanto, a família não recebe atenção, os indivíduos trabalham para mantê-la, mas não desfrutam da companhia uns dos outros, o que acaba sendo contraditório. Mostrando, assim, a vida em família como ela, privada. 

No filme “Nós Somos as Melhores!” (Vi är bäst!, 2014) tem-se a história de três amigas: Bobo, Klara e Hedvig que querem montar uma banda punk. A história se passa em Estocolmo (capital da Suécia) em 1982, ano em que se propagava o fim do movimento punk com a frase “O punk está morto”. Para Klara e Bobo, de apenas doze anos, o punk não está morto. Para montar a banda, convidam Hedvig, apenas um ano mais velha e a única que possui formação musical. A trilha sonora é repleta de músicas de bandas punks suecas como a KSMB, Ebba Grön e Incest Brothers. Bandas que cantam em sueco, mas que se baseiam em bandas punks famosas como The Clash, Sex Pistols e Misfits

Bobo, Klara e Hedvig não se encaixam no padrão de comportamento escolar e, muito menos, social. Possuem atitude contestadora, tendo a difícil tarefa de construir as suas respectivas personalidades pela alteridade em relação ao outro, seja a partir da rejeição ou, no caso das três, da identificação mútua. O elemento de identificação e construção das personagens passa pela música, pelo estilo de se vestir e de comportamento. Klara possui moicano, Bobo cabelos curtos, estilo Johnny Rotten; e Hedvig acaba tendo os longos cabelos loiros cortados a um “estilo punk”. O cabelo, portanto, acaba sendo um elemento de identidade e diferenciador social.  

 Em “Nós Somos as Melhores!” Moodysson retoma temas comuns da sua cinematografia, tais como a infância, retratada a partir de uma perspectiva pessimista em “Para sempre Lilya”, mas colocada em uma perspectiva otimista; como também a própria cultura sueca, destacada pela música punk, que acaba sendo um dos principais pontos positivos do filme. Por fim, “Punk's Not Dead”, seja em 1982 quando se ouvia a música “Sex Noll Två” do KSMB, ou mesmo em 2014 com a banda Gogol Bordello com o seu estilo “Gipsy Punk”, que mescla música cigana do leste europeu, influências folclóricas eslavas e punk rock com performances teatrais envolvendo dança e arte de rua.

Trailer do filme "Nós Somos as Melhores"

Programação da Sessão Zoom de Dezembro

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Outro Tijolo no Muro

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Era 09 de novembro de 1989, às 23h29, quando na Rua Bornholmer, na região norte da cidade, cai o primeiro bloqueio de uma série de pontos de controle ao longo do Muro de 156 quilômetros que dividia Berlim fisicamente desde 1961. Outros tijolos começaram a cair, seja no principal ponto de controle das duas "Alemanhas", como o Checkpoint Charlie, na rua Friedrichstraße, ou mesmo sobre a Praça Potsdamer Platz, ou ainda defronte ao Portão de Brandemburgo. Por toda a cidade, um símbolo começava a ruir. No cinema e na música, a cidade, o seu muro, a vida de seus habitantes, o seu céu foram elementos que inspiraram artistas como os músicos Lou Reed e David Bowie, os cineastas R.W. Fassbinder, Wim Wenders e Wolfgang Becker

Um muro separa dois extremos, todavia dois espaços intimamente próximos, de modo que o maior símbolo do antagonismo não está na extensão ou na largura do muro, mas, sim, na sua altura. Na era dos extremos, que caracterizou “o breve século XX”, o final da II Guerra Mundial (1939-1945) trouxe consequências políticas para a então derrotada Alemanha, que teve o seu território dividido entre zonas de ocupação e influência pelos países aliados (EUA, França e Grã-Bretanha) e pela União Soviética (URSS). Não apenas o território alemão foi dividido, como também a própria capital Berlim, que ficava na zona soviética, foi dividida, sendo o símbolo máximo da divisão o “Muro de Berlim”, construído no dia 13 de agosto de 1961. 

Cidades são aglomerações recentes, datadas há cerca de doze mil anos. Logo com o seu surgimento, houve a necessidade de murá-las, fortificá-las contra o ataque de outras cidades inimigas. A própria Berlim já era murada nos séculos XVII e XVIII, tendo o local do Portão de Brandemburgo como entrada e saída da fortificação desde o período do sacro império germânico e dos reis prussianos. A cidade se expande, seus muros caem. No entanto, com o fim da II Segunda Guerra Mundial, e o início da Guerra Fria (1945-1991), outros tijolos erguem outro muro sobre Berlim, separando-a não apenas fisicamente, mas politicamente, socialmente e culturalmente, sendo polarizada entre a visão capitalista de uma lado (RFA) e a visão soviética de outro (DDR). 

Berlim é uma bela cidade, capital de vários reinos, reduto de outros tantos artistas. O músico inglês David Bowie (1947-) morou na cidade entre os anos de 1977 e 1979, onde ele compôs três discos, que ficaram conhecidos como a “Trilogia de Berlim”: “Low”, “Heroes” e “Lodger”, com destaque para a música instrumental “Neuköln”, que faz alusão a uma região da cidade. Já o músico estadunidense Lou Reed (1942-2013) fez uma exaltação à capital alemã na música “Berlin”, que abre o disco homônimo de 1973, no qual o primeiro verso cita o muro, mas destaca a cidade com os seus encantos: “Eins, zwei, drei/In Berlin, by the wall/You were five foot ten inches tall/It was very nice/Candlelight and Dubonnet on ice”. 

Berlim foi tema de diversos filmes e uma série especial para o formato televisivo feita por Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), chamada “Berlin Alexanderplatz” (1980), baseada no romance homônimo de 1929 do escritor expressionista Alfred Döblin (1878-1957), tendo a sua primeira adaptação cinematográfica datada de 1931, feita por Phil Jutzi (1896-1946). A obra de Fassbinder possui quatorze episódios que se centram na vida de Franz, um pobre trabalhador tendo que sobreviver na Alemanha da República de Weimar (1919-1933) em um contexto de crise econômica e social, onde as ideias no nacional-socialismo nazista surgiram e se propagaram, quando o país começa a erguer um “muro ideológico”. 

O cineasta Wim Wnders faz uma ode à Berlim no filme “Asas do desejo” (1987), que possui como um dos títulos “O Céu Sobre Berlim” (Der Himmel über Berlin). No filme, anjos observam a humanidade, ora vagando sobre monumentos, ruas e prédios, ora entre os homens. A cidade é dividida, o muro separa a parte capitalista (RFA) da parte soviética (DDR). No entanto, os anjos pairam sobre o céu, escutam as angústias e os anseios humanos. Alguns anjos observam, outro se apaixona pela humanidade, preferindo a queda à imortalidade, almejando as sensações humanas efêmeras, mas intensas. O muro é apenas uma construção física, deixado em segundo plano para discussões metafísicas humanas. 

O muro de Berlim cai no dia 09 de novembro de 1989. O muro físico caiu, no entanto, houve um muro simbólico, ideológico, que ainda separa a capital alemã, seja na arquitetura, no saudosismo do regime soviético e na não adaptação ao sistema capitalista, como mostrado no filme “Adeus, Lênin!” (2003) do diretor Wolfgang Becker, no qual a personagem Christiane Kerner seria um símbolo do regime soviético alemão (DDR), de modo que sua vida (prática e duração) é o mesmo da República Democrática Alemã. Hoje, Berlim é uma cidade singular, vanguarda, beleza, cultura, seus muros caíram. Mas, outros tijolos são colocados em muros na Palestina, no México, nas favelas do Rio de Janeiro, em fronteiras ao redor do mundo.

Lou Reed "Berlin"

David Bowie "Neuköln"

O Cinema Brasileiro da Retomada

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Diferentemente de outras expressões artísticas individuais dependentes apenas da capacidade intelectual e artística de seu Criador, o Cinema é uma Arte coletiva que depende também de uma grande quantidade de recursos, equipamentos e profissionais para a sua realização, tornando-o uma Arte cara. Para a sua realização, no Brasil, há a necessidade de produção via financiamento particular através de produtores/produtoras ou de incentivos fiscais a partir de leis de incentivo. No entanto, entre 1992 a 1994 foram produzidos apenas dois filmes no Brasil devido à falta de agências de fomento e leis de incentivo, o que foi mudado a partir de 1995 com o que se denominou de “Cinema da Retomada”. 

A história do cinema brasileiro é rica, com obras importantes não apenas para o cinema nacional, mas também para o cinema mundial, tendo grandes diretores como Humberto Mauro (1897-1983), Glauber Rocha (1939-1981), Nelson Pereira dos Santos (1928-), José Mojica Marins (1936-), Rogério Sganzerla (1946-2004), Júlio Bressane (1946-). Todavia, entre 1992 a 1994, durante o governo de Fernando Collor de Mello, a produção cinematográfica brasileira esteve em seu estágio mais baixo com a extinção da Concine (Conselho Nacional de Cinema) e da Embrafilme. Em um período de três anos, o cinema brasileiro teve o pior período da sua história com uma produção cinematográfica ínfima. 

O Cinema da Retomada foi um período de ressurgimento das produções nacionais entre 1995 até 2002. O estado passa a fomentar a produção cinematográfica a partir de leis de incentivo e cria a Ancine (Agência Nacional do Cinema) em 2001. As produções do período possuem um elemento em comum: a aceitação do público interno em relação às produções cinematográficas nacionais, que passam a lotar as salas de cinema. No entanto, elas podem ser divididas em dois grupos: o primeiro encabeçado pelas produções da Globo Filmes; e o outro por diretores que almejavam fazer filmes autorais, que fossem expressões artísticas. 

Em 1998, as Organizações Globo criam a coprodutora Globo Filmes como extensão da Rede Globo de Televisão. O objetivo é produzir filmes para o mercado cinematográfica interno, que passa a ter aceitação de obras nacionais a partir do Cinema da Retomada, tendo o seu staff técnico e de atores à disposição. Os seus filmes são de fácil assimilação pelo público já acostumado com a linguagem televisiva das telenovelas e mini-séries, segmentando, assim, o gênero da comédia e da comédia romântica. No período, lançam “Simão, o Fantasma Trapalhão” (1998), “Zoando na TV” (1999) e “O Auto da Compadecida” (1999), no qual a o filme é apenas um produto de consumo que volta a ser retomado pelo grande público. 

O marco do Cinema da Retomada é a data de 1995, ano de produção de dois importantes filmes: o primeiro “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, dirigido por Carla Camurati. O filme centra o seu enredo na vinda da família real portuguesa ao Brasil em 1808, fugindo das invasões napoleônicas, tendo as figuras de rei D. João VI (1776-1826) e da infante Carlota Joaquina de Bourbon (1775-1830) como personagens centrais. Ele mostra de forma cômica o contraste das duas culturas: a portuguesa e a brasileira. As personagens são caricaturizadas para gerar o efeito de humor, destacando a suposta sofisticação europeia em contraste com o exotismo das terras brasileiras. 

Se “Carlota Joaquina” foi o grande sucesso de público e o marco do Cinema da Retomada, a grande qualidade artística está por conta do filme “Terra Estrangeira” (1996) do diretor Walter Salles. O filme vai ser o responsável por abrir o caminho oposto ao cinema comercial, com um cinema de autor. Na obra, há uma reflexão sobre os anos da Era Collor, com a desilusão existencial devido à crise econômica e a tentativa de emigração do Brasil. Walter Salles ganharia destaque ainda com “Central do Brasil” (1998), o primeiro filme de “comoção nacional” da década de 1990, que entorne dele se geraria um orgulho e uma identidade em relação ao cinema brasileiro. O cineasta dirigiu ainda “O Primeiro Dia” (1998) e “Abril Despedaçado” (2001). 


Durante o período da Retomada, destacam-se filmes como “O Quatrilho” (1995), dirigido por Fábio Barreto e “O Que é isso, companheiro?” (1997), dirigido por Bruno Barreto, sendo baseado no livro homônimo de 1979 escrito por Fernando Gabeira sobre o sequestro do embaixador do Estados Unidos Charles Burke Elbrick, em 1969. Cineastas como Beto Brant com os seus filmes “Ação entre amigos” (1998) e “O Invasor” (1999); Laís Bodanzky com “Bixo de Sete Cabeças” (2001) também figuram como exemplos de produções da época.

Por fim, o filme “Cidade de Deus” (2002) é o marco de transição entre o que se chamou de “Cinema de Retomada” e o cinema brasileiro que vai se desenvolver com extrema qualidade a partir do século XXI. A retomada terminou o seu processo em 2002; atualmente, o Cinema Brasileiro vive o seu melhor momento desde o Cinema Novo da década de 1960, com um cinema autoral e com aceitação por parte do grande público, sem perder a qualidade e com quantidade.

A Questão da Crítica Cinematográfica

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No princípio era o roteiro, depois a produção. O Cineasta disse: “haja luz, plano, montagem”, o Cinema foi feito. Com a obra finalizada, foi contemplá-la, o espectador foi vê-la e algumas pessoas foram criticá-la. A crítica surge no contexto da realização cinematográfica. Logo que se finaliza um filme, alguns espectadores passam a ser os primeiros críticos tentando compreendê-lo. No entanto, uma classe minoritária surge tentando dialogar, desvendar, dar significado para a obra, são chamados de críticos cinematográficos. Alguns se tornam cineastas, outros messias que guiam o espectador e muitos outros contam histórias. 

O Cinema é uma Arte recente, possui pouco mais de cem anos, tendo como marco o dia 28 de dezembro de 1895, quando os Irmãos Lumière fizeram a primeira exibição em público de obras cinematográficas no Grand Café, em Paris. Projetaram “A chegada do trem à estação Ciotat" e "Saída das operárias da Fábrica Lumière”, causando espanto, admiração e pânico nos espectadores, alguns realmente acreditaram que o trem era real, fugiram do local. A exibição dos Irmãos Lumière foi o grande destaque dos jornais parisienses dos dias seguintes, com textos que tentavam explicar a nova arte.  

Tão logo que há o nascimento do Cinema, há o surgimento da crítica cinematográfica, podendo ser dividida em dois tipos: a crítica externa e a crítica interna (imanente). A primeira se preocupa com o contexto de produção e recepção da obra, tendo uma base sociológica, relaciona a produção de significado e a significação que o receptor atribui à obra ao contexto histórico e social. Destaca, deste modo, os temas abordados pela narrativa fílmica segundo posicionamentos ideológicos e historicamente construídos. 

Já a crítica interna (imanente) se preocupa com o caráter estrutural da obra, de como os elementos da linguagem cinematográfica, tais como enquadramento, plano, luz, direção de arte, roteiro, montagem, sonoplastia produzem significados. Suas bases são estruturalistas e se associam ao campo dos estudos e da teoria cinematográfica, principalmente com a influência da semiótica, que estuda o cinema como um sistema de significação, tendo a figura do francês Christian Metz como principal influência a partir da década de 1970. 

A crítica cinematográfica acaba polarizada. Há a crítica descritiva, preocupada em descrever os elementos estruturais do discurso cinematográfico, “desconstruindo” o filme a partir de uma análise fílmica que busca compreender o seu processo de significação. De outro lado, a crítica valorativa se preocupa em emitir opiniões subjetivas sobre gostos, apreciações e efeito de recepção, baseando-se apenas em elementos do enredo fílmico, principalmente o tema e as personagens. Assim, a crítica fica entre o juízo de valor e o juízo de fato. 

A figura do crítico é vista como elemento intermediador entre o filme e o espectador. Todavia, alguns cineastas desenvolveram atividade crítica antes da cinematográfica, como é o caso de Glauber Rocha, Jean-Luc Godard e François Truffaut. Os cineastas franceses colaboraram na década de 1950 com críticas para a revista fundada por André Bazin “Cahiers du Cinéma” antes de dirigirem filmes que seriam a referência do cinema de autor e do movimento cinematográfico da Nouvelle Vague francesa na década seguinte. 

No Brasil, a figura do cineasta Glauber Rocha é a que mais se associação ao artista completo: o crítico, o teórico e o prático, ou seja, aquele artista que tem a visão crítica da sua arte, a capacidade teórica de entendê-la na sua unidade e no seu presente, como também de estudá-la no seu desenvolvimento histórico para, assim, conseguir dar uma significação social, uma importância artística e referência para ela. Sendo crítico, Glauber compreendeu o que estava sendo produzido no cinema brasileiro de sua época e, sendo teórico, conseguiu entender os elementos práticos da linguagem cinematográfica conseguindo fundamentar a sua obra com uma proposta estética inovadora: o Cinema Novo. 

Portanto, a crítica faz parte do universo do cinema, podendo ser um exercício de análise, de um olhar mais profundo e, antes de tudo, uma prática de escrita e, em poucos casos, levar à prática cinematográfica. O grande problema da crítica é que ela não possui a mesma linguagem do cinema, sendo escrita, há a dificuldade de aludir à elementos da linguagem cinematográfica. Assim, ela pode ser um exercício de apreciação fílmica e de escrita que dialoga com outro texto. Mas, há blogs opinativos superficiais, messias com lanterninhas guiando os cegos, todos falando de filmes ruins para espectadores perdidos. Ao final, há outra crítica que não serve para nada, a não ser para ela mesma. Ela não é nada. Nunca será nada. Não pode querer ser nada. À parte isso, tem nela todas as possibilidades.

Programação de Outubro da Sessão Zoom

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Miss Violence: Senhorita Violência

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Miss Violence” (2013) é um filme grego dirigido pelo cineasta Alexandro Avranas, sendo o grande ganhador do Leão de Prata, prêmio do Festival de Cinema de Veneza para o melhor diretor, em 2013. O filme ata as duas pontas da cultura e da sociedade grega: a clássica e a atual, ou seja, aquela que no seu esplendor conseguiu criar as bases da cultura ocidental com a filosofia, literatura, e outras expressões artísticas; e esta que expõe o que de pior há no ser humano e, consequentemente, na sociedade. Partindo do micro (família) para o macro (sociedade), o diretor expõe temas complexos, tais como suicídios, incesto, pedofilia e prostituição infantil. 

No interior de um apartamento, uma porta pintada de branco se abre, duas adolescentes saem do quarto, vão para a sala, a família está reunida: um pai-avô, a avó, uma mãe, com suas três filhas, duas adolescentes e uma criança, além de um filho menor. O clima é de festa, festejam ao som de uma música alegre, a aniversariante está com um semblante triste na foto oficial da família, está completando onze anos. A festa é padrão, há o bolo de pasta americana, colheres rosa e copos coloridos, alguns dançam, ao fundo ouve-se a música “Dance me to the end of love”, de Leonard Cohen. Angeliki, a aniversariante, vai até a sacada, sorri, olha para a câmera, se joga, morta está, sobem os créditos iniciais. 

O prólogo com a morte de Angeliki ocorre em três minutos de filme, de uma festa de tom alegre à garota no chão com uma possa de sangue em volta da cabeça. A alegria dura poucos minutos, agora começa a tentativa do espectador para descobrir o porquê da garota ter se suicidado no seu aniversário de onze anos. Todavia, para que o enredo do filme ganhe sentido, é preciso entender a dinâmica da família e as relações de poder e de dominação que se estabelecem no ambiente familiar. Na trama, alguns indivíduos de fora tentam compreender e achar as motivações de Angeliki, como investigadores, funcionários da escola, ou mesmo a vizinha, mas a resposta é construída aos poucos, seja pelo desenrolar do enredo ou com o diálogo do espectador com a narrativa. 
 
No filme, a estrutura familiar é arcaica e padrão, sendo patriarcal, há a figura do avô-pai, que controla e detém o poder sobre os demais membros da família, há ainda a mãe passiva e observadora, que tudo sabe e tudo vê. Os outros ramos da genealogia são compostos pela filha, que por sua vez possui quatro filhos e está grávida. Todos vivem sob o mesmo teto e sobre as mesmas regras de convivência familiar. A única figura masculina é a do avô-pai, com o suicídio de Angeliki, restam apenas três mulheres e o pequeno Philippos. Ainda assim, não há respostas para a terceira mulher em uma linha de quatro mulheres da família ter se suicidado. Mas, ainda há as outras mulheres e a avó. 


O filme trata de temas demasiados humanos e de complexidade social. O primeiro deles é o suicídio, que acaba perdendo força conforme o enredo se desenvolve, ele irá se mostra como libertação e negação de um destino, o que na tragédia clássica grega era algo impossível. Em seguida, nota-se que a dominação do avô-pai é baseada também na relação sexual com as suas filhas, destacando-se, logo, a questão do incesto, de modo que a sua filha Eleni, possui três filhas que podem ser do pai-avô. 

O incesto é confirmado apenas quando se descobre que o pai-avô prostitui as mulheres da família, na cena mais impactante do filme, quando a adolescente Myrte é levada e acompanhada pelo patriarca da família para se prostituir em uma lavanderia, onde três homens, em sequência, fazem sexo de forma agressiva com a garota, dois funcionários, e, por último, o patriarca. Do incesto, passa-se para a prostituição infantil, sendo justamente nesta passagem que se obtêm a resposta do por que do suicídio. 

O suicídio de Angeliki foi a negação do futuro que a aguardava, que também foi, ao final, destinado a filha mais nova, de aproximadamente oito anos, quando o seu pai-avô a leva para um velho senhor, que paga para ter relações com a virginal garota. A pedofilia ganha destaque no filme. Com os temas abordados, tem-se que a família como núcleo social agregador é decadente, suas estruturas são podres, da aparência harmoniosa e perfeita, há camadas mais profundas de podridão e contradições humanas e sociais. 

Na tragédia grega, o destino é algo inevitável, mas há a catarse, um sentimento de dor e piedade provocado no espectador. O que se tem ao final do filme “Miss Violence” é o estranhamento e questionamento, primeiro do homem, se ele seria bom como afirma o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, e depois das estruturas sociais patriarcais, que submetem a figura feminina à dominação masculina. Por fim, o êxtase (do grego ékstasis) das mulheres é o mesmo do espectador, que entra em catarse com o fim trágico do patriarca. A porta se fecha: êxodo.

Trailer do Filme:


Um Filme Sob o Céu de Berlim

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Win Wenders
No céu sobre Berlim há nuvens cinza, o frio, o vento gélido e anjos, que pairam no ar, descansam em monumentos e caminham entre os homens. “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin, 1987, RDA) foi dirigido pelo cineasta Wim Wenders (1945-), um dos representantes do Novo Cinema Alemão (Neuer Deutscher Film), surgido nas décadas de 1960 e 1970, tendo a Nouvelle Vague Francesa com o seu Cinema de Autor como influência e a tentativa de revigorar a produção cinematográfica alemã como objetivo. O filme é um dos mais expressivos da carreira do cineasta, sendo ainda laureado com a Palma de Ouro no festival de Cinema de Cannes e uma das obras mais importantes e expressivas da história do cinema. 

Sobre o céu de Berlim há anjos que observam a humanidade dentre as cinzas nuvens ou mesmo nas ruas de uma cidade dividida. Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) são anjos que acompanham os pensamentos e as ações dos berlinenses e seus visitantes, seja na parte socialista oriental (DDR) ou, predominantemente, na parte capitalista ocidental (BRD). O muro divide a cidade; no tempo, são cinquenta anos dos jogos olímpicos e duzentos do vôo de balão de Blanchard. Damiel se apaixona por uma trapezista chamada Marion (Solveig Dommartin), o que realça o seu fascínio pela humanidade, acompanhando-a desde os seus estágios mais pretéritos. Seu mundo é preto e branco, a queda o seu desejo, Marion suas asas. 

O filme possui dois títulos: o primeiro “Asas do Desejo” (Wings of Desire, Les Ailes du Désir, Las Alas del Deseo) divulgado e destinado à distribuição fora da Alemanha; o segundo, “O Céu sobre Berlim” (Der Himmel über Berlin), o mais interessante, pois o filme é uma ode à capital alemã. A cidade é um dos pontos mais importantes do filme, mesmo sendo dividida, os anjos pairam acima das questões históricas e políticas. Monumentos como a Coluna da Vitória (Siegessäule) no centro do Parque Tiergarten, a Avenida Unter den Linden para o leste da cidade e, em sentido oposto, a Torre de Rádio de Berlim (Berliner Funkturm) são mostrados. Um velho procura, rente ao muro, a Postdamer Platz, acha as suas reminiscências e um sofá. 

Damiel e Cassiel são dois anjos que acompanham a humanidade. Os anjos são seres míticos de diversas narrativas, sejam elas de matriz judaica (conhecidos como Malach), cristã, ou ainda zoroatrista, hindu e budista (chamados de Devas). Olham de cima para baixo, observando seres que adquiriram consciência e livre-arbítrio, tentando se elevar. No filme, Damiel é passional, dionisíaco, tem fascínio pela humanidade, se apaixona por uma mulher, quer sentir o gosto do café, de cigarro, sentir frio e poder se aquecer. Cassiel é apolíneo, poderia ser analisado como a metáfora do “Anjo da história”, utilizada pelo filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) no seu ensaio “Sobre o conceito de história” (1940) para analisar o conceito de progresso da história. 

Asas do Desejo” se destaca pela fotografia, inicialmente, em preto e branco. Em alguns planos e na parte final do filme, ela passa a ter cores. O mundo das cores é o da visão do homem, da condição humana, sendo elas quentes ou frias. Aos anjos restam-lhes apenas ver o mundo e os homens em preto e branco. Como a visão de Damiel e Cassiel é a compartilhada pela câmera subjetiva, mostrando o que os anjos veem, o espectador também. Ao final, com a queda de Damiel, e com a recorrência do seu olhar, a fotografia passa a ser em cores, pois, o outrora anjo é, agora, humano demasiado humano. A primeira coisa que ele aprende é diferenciar as cores, vendo o significado de significantes, reproduzindo os seus nomes, apontando-as no muro. 

O filme é a materialização da Arte cinematográfica; a poesia e a narrativa são a da Literatura. A relação entre o Cinema e a Literatura com frequência é associada entre narrativa literária e filme. No entanto, em “Asas do desejo”, o filme se assemelha à poesia. Ele se utiliza dela na abertura, no prólogo, com o poema do escritor austríaco Peter Handke (1943-): “Quando a criança era criança” (Als das Kind Kind war), sendo escrito sobre uma folha de papel. Cada plano tem a sua duração, é polido com luz, sombra, arte e se assemelha às palavras lavradas, trabalhadas pelo poeta ourives, tentando extrair, criar, destacar, atribuir o máximo de significado e de expressão poética da palavra bruta. 

O mais famoso dos anjos é o portador da luz, Lúcifer, denominado pela tradição judaica como “Estrela da manhã”, foi representado como orgulhoso no poema épico “Paraíso perdido” do escritor inglês John Milton, ou mesmo como o “Pai dos revoltosos” nas “litanias de Satã” do poeta francês Charles Baudelaire, como também nas narrativas poéticas e nos quadros de William Blake. Em “Asas do desejo”, Damiel e Cassiel são anjos, mas sem o aspecto religioso, e, sim, com uma moldagem filosófica, crítica, ou seja, Apolínea e Dionisíaca. O primeiro, cansado de admirar a humanidade sobre o céu de Berlim, se torna um anjo caído; já o segundo tem toda a eternidade para observar a efêmera história dos homens. Continua...