Capa do novo livro

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Lançar um livro sobre filmes não é uma tarefa individual, ainda bem que estou contando com amigos e profissionais excelentes: o Heitor RM fez o prefácio, o Luciano Salles vai fazer as ilustrações, o Luís Zakaib a apresentação do autor, a Tania Capel a produção e o Flávio Plex Carvalho a arte gráfica e a capa.
Todo mundo poderá ajudar, lembrando que o lançamento será via Catarse (crowdfunding/financiamento coletivo)!!!
O LANÇAMENTO será em outubro. Que comecem os preparativos!
Já apresento a capa, o que vocês acharam??????

The Peace is Over

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A doumentary about the brazilian’ high school students against the state. 

In the end of 2015, high school students mobilized against the government’s proposal to reformulate the education system the state of São Paulo in Brazil. The students didn’t agree with the vertical imposition of the project, they considered the project arbitrary besides not beneficial to the student class. As a consequence, the students started street demonstration and then they occupied schools as a form of struggle, strategy influenced by Chilean secondary students who had done the same in 2006. The documentary The peace is over (Acabou a paz: isto aqui vai virar o Chile) was directed by Carlos Pronzato in 2016 and shows the process of the students’ struggle in São Paulo in parallel with the struggle of the Chilean students highlighted in the documentary The Penguin Revolution (A revolução dos pinguins). 

In October of 2015, the state secretary of education Herman Voorwald released the government’s proposal of the state of São Paulo regarding the reformulation of the public school system, based on a "reorganization" since the closure of ninety-four school units, distributed throughout the state. The schools would be divided into cycles, so that each unit would only have one cycle of education. The affected students, about 311,000, would be forced to be transferred to other school units, often overcrowded and far from home. But the "reorganization" was based on the two billion reais cut in education made by the state government. 

The documentary The peace is over shows the process of struggle of secondary students against the "reorganization" of the education system proposed by the state government of São Paulo. The demonstrations began on October 6th, 2015 with marches in the main points of the city of São Paulo, extending for a month. The students’ strategy change occurred in November with the influence of the Chilean students' fighting practices in 2006, based on school occupations. So on November 9th a group of students occupied a state school in the region of Diadema and the next morning, another group occupied the Fernão Dias State School in the city of São Paulo initiating a mobilization process that would occupy more than two hundred schools throughout the state in a short period of time. 

In the first images of the documentary The peace is over, there is an assembly of students, they are reading a letter, a manifesto, they use the jogral strategy: one student reads a document aloud, others repeat even the circular information for all. Then images of street manifestation alternate with testimonials from students, teachers, parents and journalists who accompanied and sympathized with the students' struggle. The goal of director Carlos Pronzato is to understand and demonstrate the dynamics of the movement, how it came about and, mainly, how it shapes itself in its organization and struggle strategies. 

The struggle strategy of the students of São Paulo is interesting from the point of view not only organizational but also political because they managed to mobilize a large number of high school students and have the support of a significant part of society in a short period of time. The clash against the repressive and controlling apparatus of the state occurred with the use of a dynamic with organizational practices that the "political authorities" were not prepared to deal with. There were no leaders of the movement, built autonomously and horizontally. The students used the tools of social media to communicate, organize and produce their own dissemination content. 

The greatest merit of the documentary filmmaker Carlos Pronzato is to highlight and maintain the protagonism of students in the process of occupying schools. The students organized themselves efficiently and autonomously without the direct influence of other sectors of society. Obviously, they received support from various segments and social organizations. What is interesting is that the school occupations created similar "TAZ" (Temporary Autonomous Zone) where groups of individuals come together for a common purpose from straightforward non-hierarchical relationships, with complete freedom, with new relationships and social practices being intensified. 

To paraphrase some verses by the Brazilian poet Carlos Drummond de Andrade, the high school students of São Paulo State who participated in the process of struggle against the "reorganization" of the state system of education proposed by the state government owned “several hands” and “world feeling”. They won the victory over arbitrary and non-consultative impositions of a state controlled by private and economic interests. For them, the classroom will be transformed into something small, because by transforming the school environment, the world changes. Finally, the song verses sung by the students in the documentary The peace is over still echo: “All the schools/ fight schools/ stay ready/ If any closed we occupy” (Todas as escolas/escolas de luta/fica preparado/se fechar alguma a gente ocupa).

Complete movie




MC Foice and MC Martelo "Escola de Luta"


Gimme Danger: a história dos The Stooges segundo Jim Jarmusch

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Kurt Cobain dizia ser Raw Power (1973) o melhor disco de todos os tempos. Já a capa do álbum The Stooges (1969) foi parodiada por bandas como Fugees, Belle & Sebastian e por Di Melo. The Stooges, é ao lado do grupo MC5, o responsável direto por apontar os caminhos que o estilo musical punk seguiria uma década depois da formação da banda em 1967, na cidade de Detroit, nos Estados Unidos. O documentário Gimme Danger (2016) foi a proposta do cineasta Jim Jarmusch para explorar a história de Iggy Pop e The Stooges nas suas influências, gênese e legado. 

O documentário começa com um prólogo sobre Iggy Pop mostrando o seu início de carreira musical como o baterista dos grupos The Iguanas e The Prime Movers, até que em 1967 decide criar o The Stooges junto com os irmãos Ron e Scott Asheton. Ouve-se os versos “Gimme danger, little stranger/And i'll feel you bleed/Gimme danger, little stranger/And i'll feel your disease”. Nos próximos 108 minutos, Jim e Iggy mostram para o espectador através de imagens, fotos da época, depoimentos a importância do The Stooges para a música dos anos seguinte. 

Jim Jarmusch é um dos expoentes do grupo de cineastas do “cinema independente” estadunidense surgido na década de 1980. Dirigiu filmes como Estranhos no paraíso (1984), Dead Man (1995), Sobre café e cigarros (2003), com a participação de Iggy Pop, Flores partidas (2005), Amantes Eternos (2014) e Paterson (2016). Gimme Danger foi a primeira tentativa do diretor de trabalhar o gênero documental. 

O diretor foca a narrativa nos anos de 1969 a 1973, durante o período de gravação dos três primeiros discos do The Stooges. The Stooges (1969) foi produzido por John Cale (músico da banda The Velvet Underground), com destaque para as músicas I wanna be your dog e No fun, caracterizado por uma sonoridade mais simples, distorcida, experimentalista. No segundo disco, a banda o grava em Los Angeles, eis que surge Fun House (1970) com as canções T.V eye, Dirt e Fun House. Uma produção marcada por experimentações e por uma nova sonoridade influenciada pelo blues, jazz, adaptada àquilo que será conhecido como “som punk”. 

Em 1972, David Bowie deseja conhecer Iggy Pop, do encontro surge o convite para a ida a Londres, onde o músico inglês, no auge do seu prestigio com o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), produz o álbum Raw Power (1973). Bowie estava produzindo ao mesmo tempo a obra-prima de Lou Reed: Transformer (1972). Do disco Raw Power surgi a canção título do documentário  Gimme Danger, com destaque ainda para as composições Search and Destroy e Penetration

Jarmusch elenca as influências do The Stooges a partir de nomes como The Velvet Underground, Mother of Invention e MC5. No entanto, o destaque fica por conta do legado, em como os músicos de Detroit criaram uma sonoridade, um estilo, uma musicalidade proto-punk com canções com versos simples, com temas grotescos, e riffs poderosos, com uma guitarra repleta de distorção. Bandas como Sex Pistols, Damed, Ramones, Sonic Youth, The Cramps, White Stripes foram influenciadas pelas composições de Iggy e dos irmãos Asheton. 

Gimme Danger termina com a história do convite do festival de Coachela para a reunião de Iggy Pop e os músicos do The Stooges para uma apresentação em 2003, e a inclusão do grupo no Hall da Fama do rock em uma cerimônia em 2010. Jarmusch faz um documentário simples, sem inovações, destacando a música, as estórias de Iggy Pop e dos demais integrantes do The Stooges, além de histórias relacionadas ao campo da música pop, principalmente punk, nas décadas de 1960 e 1970, com os músicos de Detroit como agentes. 

There's nothing in my dreams
 Just some ugly memories 
Kiss me like the ocean breeze

Trailer do filme

As visões da realidade de Shirley

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Eu sou ela, você é ela, Shirley é a expressão da solidão moderna, em uma sociedade que possibilita os indivíduos estarem tão perto, tão longe. No filme “Shirley: visões da realidade” (2013), o diretor austríaco Gustav Deutsch cria uma obra que transpõe a estética do pintor estadunidense Edward Hopper para o cinema. Temas como relacionamento, a melancolia, o tempo, a solidão são trabalhados a partir de uma estreita relação entre pintura e cinema. 
Shirley entra no vagão do trem, há apenas ela e mais três passageiros: dois homens e uma mulher. Escolhe uma poltrona, se senta, abre o livro de Emily Dickinson com o desenho de um quadro de Edward Hopper na capa. Todos estão solitários, viajam sozinhos, não se interagem, o espaço é apenas um lugar para se estar, transitório, passageiro para o corpo, para as relações, para o superficial contato. 

O filme de Gustav Deutsch narra a trajetória de Shirley através de treze quadros, no sentido específico da pintura, sobre os dias e noites do dia 28 de agosto de 1931 passando por anos importantes até 1963, com os principais acontecimentos do período, como a grande depressão nos Estados Unidos, o início da Segunda Guerra Mundial (1939), a Revolução Cubana (1959), entre outros. 

A proposta do diretor é estreitar a relação entre pintura e cinema, é transpor, traduzir os quadros de Edward Hopper para uma linguagem cinematográfica, mas que privilegie a referência, a base pictórica na fotografia do filme. O pintor estadunidense se destacou na pintura, na arte do século XX, por retratar cenas da sociedade moderna, com os seus locais grandes com o homem estático, confinado em espaços pequenos. Em seus quadros há uma paisagem urbana desolada, deserta, melancólica. 

O início da percepção das transformações da sociedade moderna ocorreu com um lírico no auge do capitalismo. O poeta francês Charles Baudelaire foi o primeiro a retratar, em seus poemas, em seus quadros parisienses, a vida, os temas de uma nova sociedade que se configurava. As “flores do mal”, que germinam no espaço urbano, criam sentimentos de tédio, a revolta, a morte, a necessidade da embriaguez pelo vinho. O homem está sozinho em meio à multidão, caminha, flana pelo espaço lotado urbano. Percebe a transitoriedade de passantes, acaricia gatos, admira a beleza transitória. 

Em “Shirley: visões da realidade”, assim como nos quadros de Hopper, há uma dialética entre espaço interior versus espaço exterior. O corpo é a referência do conflito com o espaço, assim como a mente, os pensamentos são o exemplo da dissociação entre o eu e o mundo. Estar no mundo, não é necessariamente fazer parte dele, Shirley está solitária em um quarto, olha para fora, contempla algo que não podemos ver enquanto espectadores, mas que sabemos o que é, enquanto humanos, seres ora menores do que o mundo, ora maiores, de forma que o sentimento no mundo é a melancolia, a solitária existência. 

No filme “Acossado” (1960), do diretor francês Jean-Luc Godard, a personagem Patrícia Franchini (Jean Seberg) pergunta para o seu companheiro, Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), quem seria mais bonita, ela ou pintura de um quadro pendurado na parede? A relação entre pintura e cinema é uma relação próxima entre imagem e percepção. O crítico André Bazin, no seu estudo sobre a ontologia da imagem, destaca que a representação através da imagem é a própria luta contra a morte, a preservação do corpo. 

No filme “Shirley”, pintura e cinema se relacionam de forma estreita, direta, o quadro cinematográfico busca reproduzir o quadro da pintura nas texturas, nas cores, na luz, na representação, no significado. A mesma proposta ocorre em filmes como “Silvestre” (1981) do português João César Monteiro; “A Inglesa e o Duque” (2001) do francês Eric Rohmer; e a sequência “Corvos” do filme “Sonhos” (1990) do diretor japonês Akira Kurosawa. 

Por fim, o concreto da vida moderna é a solidão, o espaço exterior é a cidade, servida apenas para se estar. O ser contempla, divaga, volta-se para devaneios da realidade, o presente é tão grande, não pode se afastar, resta-lhe apenas estar, sentir a melancolia. Shirley tenta se afastar um pouco, está só na noite, no quarto, pode ser. Os problemas do ser na solitária modernidade são representados pelos quadros de Baudelaire, de Hopper e de Deutsch.

Trailer do filme

Metá Metá e o ‘MM3’

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A música é sagrada, o som e o sentido contidos nos ritmos, dissonâncias, assonâncias do universo, no interior da existência. A percussão, os metais, a guitarra e, acima de tudo, a voz de Juçara Marçal colocam o grupo Metá Metá como arauto, e principal expoente, da nova cena musical brasileira deste iniciante século XXI. Do primeiro disco “Metá Metá” (2011), passando pelo segundo “MetaL MetaL” (2012), ou ainda no “EP” (2015) e culminando na última criação “MM3” (2016), os músicos Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França apontam as possibilidades, os caminhos para a criação da música independente no Brasil. 

A música pode ser um ritual coletivo, compartilhada, ouvida, dançada, sentida em grupo. A música popular, voltada para o consumo em massa, é um produto simples, palatável, repetitivo, sem criatividade. Do outro lado há a Arte, a linguagem artística usada como expressão, visão das possibilidades, reflexo do tempo. O álbum “MM3” do grupo Metá Metá expõe que a música é a sinestesia, a introspecção, o fazer artístico, a criação sublime em cada nota, ritmo, melodia. 

A música criada pelo Metá Metá exige um ouvinte ativo, com ouvidos pensantes, interessado nas provocações, experimentações, nas possibilidades da música, que não se estranhe com o novo, pelo contrário, que se deixe fascinar, adentrar nos labirintos das composições, muitas vezes, sem o fio de Ariadne. No álbum “MM3” (2016), há a riqueza das composições, a beleza das melodias, os diálogos estabelecidos com outros ritmos, fundidos em camadas com texturas de sons com destaque para as faixas “Três Amigos”, “Imagem do Amor”, “Ossanyn” e “Obá Kossô”. 

Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França são músicos, artistas, que estão na vanguarda, pois se utilizam da tradição, não como submissão, ou peso, mas como forma de diálogo com o Jazz, o Art Rock, a Bossa Nova, com diversos ritmos brasileiros, ou mesmo de outros cantos com a característica de serem baseados na sua essência, gênese, em ritmos africanos. 

O que se tem com o álbum “MM3” é a poesia das composições elevada pelo lirismo da voz de Juçara Marçal, a música enquanto ritual sagrado, não de um transe coletivo, mas para uma oração entre indivíduo e o som para que lhe mostre o sentido.

Tracklist “MM3”
 1) Três Amigos (Rodrigo Campos/ Thiago França / Sergio Machado)
2) Angoulême (Juçara Marçal / Thiago França / Kiko Dinucci)
3) Imagem do Amor (Kiko Dinucci / Rodrigo Campos)
4) Mano Légua (Juçara Marçal / Kiko Dinucci)
5) Angolana (Juçara Marçal / Thiago França / Kiko Dinucci)
6) Corpo Vão (Juçara Marçal / Thiago França / Kiko Dinucci)
7) Ossanyn (Kiko Dinucci)
8) Toque Certeiro (Siba / Kiko Dinucci)
9) Obá Kossô (domínio público)

Metá Metá - MM3 (Álbum Completo) 2016

As Dialéticas do Clube da Esquina

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Minas são os estados gerais da alma, um campo geral onde o escritor Guimarães Rosa vislumbrou o seu “sertão-mundo”, local no qual o poeta Carlos Drummond de Andrade percebeu as condições da vida gauche nas casas, na vida interiorana de Itabira com a sua grande quantidade de ferro nas calçadas e nas almas. Das Geraes, um grupo de músicos, conhecidos pela alcunha de Clube da Esquina, surgiu das confluências, cruzamentos e da criatividade artística para se consolidar como uma das mais significativas expressões da música brasileira. 

O Clube é o grupo, uma agremiação, uma reunião de músicos inicialmente nas esquinas de Belo Horizonte, principalmente no cruzamento da rua Divinópolis com a Paraisópolis no bairro de Santa Teresa, com afinidades musicais, “mineirísticas”, que compuseram letras, criaram melodias, gravaram músicas e lançaram discos. A colaboração entre os músicos é a marca dos trabalhos, na qual o individual e o coletivo se mesclam. O termo fechado designado pela palavra “clube” se contrasta com o espaço coletivo, aberto, plural do adjunto “esquina”. 

O Clube da Esquina não é um grupo homogêneo, com uma proposta predeterminada de uma estética musical, pelo contrário, é um movimento de músicos que se reuniram por afinidades no catalisador convívio mineiro. Milton Nascimento, o Bituca, é o expoente, a figura mais conhecida do clube que foi assimilando músicos ao longo do final da década de 1960 e durante a década seguinte com nomes como Flávio Venturini, Tavinho Moura, Toninho Horta, Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, Beto Gudes e Wagner Tiso

O clube no entorno de Milton Nascimento é a gênese do movimento, pois criaram o disco “Travessia” (1967), viram que era bom; no ano seguinte gravaram nos Estados Unidos o álbum “Courage” (1968), contendo uma versão da música “Travessia” com trechos em inglês; mas décadas depois a artista islandesa Björk a cantaria em português declarando o seu fascínio pela música mineira. Em 1969, surgiu o disco “Milton Nascimento” e no ano seguinte é lançado “Milton” (1970) no qual aparece as composições “Clube da esquina”, junto com “Para Lennon e McCartney” e a poética “Alunar”. 

O Clube da Esquina se consolida em 1972 com o lançamento do disco duplo homônimo com as suas vinte e uma canções, sedimentado, dando forma para uma produção coletiva. Lô Borges se destaca como compositor, Milton como interprete, com destaque para as canções “Tudo Que Você Podia Ser”, “Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo” e “Nada Será como Antes”. Em 1978, lançariam ainda com uma identidade coletiva o disco “Clube da Esquina 2” com a participação de Elis Regina, Gonzaguinha, Chico Buarque, ampliando, assim, o som para outras esquinas. 

O Clube no entorno de Lô Borges ocorre após o lançamento do “Clube da Esquina” (1972), o artista então com dezenove anos lança o famoso disco do “tênis’ na capa com composições como “Canção Postal”, “O Caçador” e “Faça Seu Jogo”, em parceria com o seu irmão Márcio Borges. Já Milton Nascimento, entre o “Clube da Esquina” (1972) e “Clube da Esquina 2” (1978), lança duas odes a Minas Gerais com os discos “Minas” (1975) e “Geraes” (1976). As ‘mineirices” são o mote para as canções influenciadas por ladainhas, fazendas, horizontes, pessoas simples, morros e veredas. 

Minas é isso, uma vereda no norte do Jequitinhonha, a Zona da Mata, as chapadas, as veredas, o quadrilátero. A vista é bela; a travessia, filosófica; a vida, artística. A música do movimento Clube da Esquina é mineira na base, na essência, na poética, na melodia fundida com ritmos, estilos como Bossa Nova, Jazz (fussion, smooth e rock), com o Rock e o seu Art-Rock, o Progressivo, o Folk. O mineiro tem o “causo” no narrativo, a poética na vida, a música como cotidiano sagrado. A esquina é a apenas o símbolo da confluência da existência, da troca de possibilidades. 

As letras das composições mineiras dos músicos expoentes do Clube da Esquina são o particular-universal expressando de maneira poética a existência humana na sua travessia de campos gerais da vida. O amor não precisa de lágrimas, pois é só poesia e os cabelos são da cor de girassóis; o alunar é catacrese, é preciso ter os pés na terra, aterrar a vida na calmaria do sagrado cotidiano. A identidade mineira é cantada para Lennon e McCartney, assim como amor que vale a pena de Paula e Bebeto. 

Minas Gerais não é apenas uma terra fértil para a literatura com os seus escritores locais de sensibilidade universal ou mesmo poetas de um mundo ora com um Eu maior do que o mundo, ora menor na sua condição de gauches, deslocados. Nada foi como antes dentro da música brasileira, a influência das esquinas, da música mineira do clube de Milton Nascimento, Flávio Venturini, Tavinho Moura, Toninho Horta, Lô Borges, Márcio Borges, Fernando Brant, Beto Gudes e Wagner Tiso mostrou tudo o que a música pode ser, seja partindo do particular para o universal, ou mesmo caminhando entre uma produção individual e coletiva. Para os músicos do Clube da Esquina, Minas é a vida condensada em um horizonte geral de possibilidades artísticas, musicais.

Discos

Milton Nascimento - "Milton" (1970)

"Clube da Esquina" (1972)

Lô Borges - "Lô Borges" (1972)


Milton Nascimento - "Minas" (1975)



Músicas

Bjork - "Travessia"


Milton Nascimento - "Alunar"

Clube da Esquina - "Um girassol da cor do seu cabelo"


Invasão Caipira

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Araraquara é uma cidade média do interior de São Paulo com cerca de duzentos mil habitantes, está a 280 km da capital. É rodeada por plantações de cana de açúcar e pés de laranja. Seus habitantes respiram o ar cítrico sem sentir o cheiro em suas narinas tão fatigadas. O cinturão da cana é um espaço demarcado, linguisticamente reconhecido seja pelo “r” retroflexo, ou mesmo pela interjeição “acha”, ou ainda com a preposição “de” na expressão “passo de lá”, como também pelas ruas com nomes, mas indicadas por números. 

A cidade é ainda um estado central da música, capaz de criar festivais, grupos, cantores, músicos de extrema qualidade, movimentar excursões para shows na capital criando uma invasão caipira. Os grandes concertos de rock, espetáculos, festivais fazem com que um contingente de fãs da cidade se desloque para São Paulo percorrendo 280 km para ver, ouvir, sentir a música em uma viagem de um dia. 

Ônibus fretados saem rumo à capital a partir do Bar do Zinho que fica em frente a uma praça na rua mais bonita da cidade. O bar é um local de formação, educação, comunhão musical, onde músicos independentes do interior, da cidade tocam, bebem, conversam, dialogam há mais de meio século. A saída é perto da hora do almoço, quando começa a chegar uma leva de adoradores da música com roupas pretas, camisas de bandas, carregando coolers, sacolinhas com os mantimentos, acessórios para a viagem. 

A música cria uma peregrinação de araraquarenses até São Paulo, criando uma invasão caipira da capital. Uma viagem (“excursão”) como chamada no interior, de um dia, um “bate-volta” fazendo o percurso ser interessante, de modo que alguns preferem se embriagar levemente ou apenas dormir na esperança da viagem ser encurtada. Há os que são enciclopédias, repletos de história no ramo, que estiveram em concertos históricos. 

O concerto, o espetáculo musical é o fim, o objetivo final, mas a travessia do interior à capital é interessante: há o casal (Zé e Glaucia) que voltou de São Paulo apenas para ir no ônibus com os amigos, ou ainda a tímida, a bonita moça (Andréia) de Taquaritinga que viaja um pouco mais. No corredor do ônibus cenas inusitadas: alguns como Paulo Afonso, Igor e Plex conversam sobre física, filosofia, cinema e fotografia; outros, como o Matheus, preferem contar histórias; um estudante tenta fazer o trabalho da faculdade para a manhã seguinte. 

Araraquara é reconhecida não somente pela visita do filósofo francês que quis responder a uma questão, mas pela adoração à música. Não somos reconhecidos apenas pela cana, pela laranja ou pelo “r” “puxado” ou mesmo “arrastado”, a cidade é música, frequências altas, baixas, locais de batidas, ritmos, a música é a nossa melhor amiga. Se não temos boas narinas, compensamos com ouvidos apurados, exigentes, que buscam sons e sentidos na música sendo capaz de criar peregrinações até São Paulo.

Os devaneios do viajante mochileiro

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Uma ideia na cabeça e uma mochila nas costas” é o lema dos mochileiros, viajantes que buscam uma forma mais livre e horizontal de viagens, conhecidas como “mochilões”. A motivação para se viajar muitas vezes parte de uma vontade incontrolável de apenas ir, sair, caminhar, percorrer caminhos ora com roteiros definidos ora sem rumos pré-estabelecidos para conhecer novos lugares, pessoas, culturas para sentir emoções que apenas a desautomatização do cotidiano através de “espaços poéticos” sentidos pelo mochileiro é capaz de criar. 

O mochileiro é um viajante singular, suas características logo são notadas, a mais notória é o “mochilão”, uma grande mochila com diversos compartimentos na qual toda a bagagem pessoal é transportada nas costas. Ele leva apenas o que cabe nela e o que o seu corpo pode aguentar de peso, o ideal é levar o mínimo de coisas possíveis, pois a viagem tem que ser leve, prazerosa, dinâmica. O peso pode ser um empecilho, já que a leveza é uma busca sustentável do ser viajante mochileiro. Outro elemento é o calçado, uma bota impermeável (marrom ou preta), na maioria das vezes, resistente e confortável em todos os terrenos. 

O mochileiro viaja porque precisa, volta porque sente saudades, porque tem memórias que guardou, pois tudo o que a memória amou, fica eterno, como ressalta uma poetiza mineira. Viajar como mochileiro é um estilo, uma proposta, uma filosofia de viagem em que os pontos turísticos, os destinos não sãos os elementos mais importantes, mas, sim, o contato direto, horizontal com culturas diferentes que acaba colocando o mochileiro como alguém que busca fazer parte do local, da cultura visitada.

O mochileiro não busca o conforto de hotéis caros, repletos de constelações; pelo contrário, o hostel é o seu lugar de descanso predileto onde pode dividir um quarto com quatro, seis, nove ou mesmo doze camas com pessoas de diversas nacionalidades. O hostel é a habitação coletiva, uma comuna internacional onde se pode cozinhar e comer em conjunto, ler obras de diversos viajantes, brincar com mascotes, ou ainda ajudar na conservação do espaço. Ele é uma zona autônoma temporária para os mochileiros e um canal de diálogo com a cultura local. 

O mochileiro é um aventureiro por opção, um inquieto por essência, um ser apaixonado por natureza. Sua conduta é sempre cooperativista, a troca e a busca de conhecimento uma constante. Para ele, é preciso conhecer e não apenas visitar; fazer parte, colaborar e não apenas consumir; estar modificando o ser e não apenas vagar por pontos turísticos tirando selfies. Por fim, assim como os antigos navegantes portugueses tinham o seu lema, hoje os mochileiros possuem os nossos: “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”.

Fotografias de Viagem

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Foto: Marcela Campos
A fotografia é uma linguagem recente, data da primeira metade do século XIX e logo no seu processo de surgimento foi inicialmente voltada para a documentação do real e, em seguida, trabalhada como sistema de significação de forma artística. Ao lado do cinema (‘imagem em movimento”) se entrelaçou com o advento da modernidade com a sua reprodutividade técnica, em um primeiro momento de bases analógica e, atualmente, digital, o que não apenas popularizou em massa a fotografia como também criou práticas e comportamentos relacionados ao ato fotográfico estranhos, como os selfies em locais cotidianos banais ou mesmo em locais turísticos em viagens. 

Viajar é um deslocamento no espaço e no tempo, caminha-se por locais na busca de “espaços poéticos” que desautomatizem a vida, deem um significado maior para a existência humana em uma dialética entre interior versus exterior, entre o local e o ser, entre a própria cultura e a do outro, para, de maneira empática, formar uma síntese baseada no conhecimento entre todas as pessoas gramaticais: eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas em consonância com o espaço-tempo. 

Nota-se que o viajante pós-moderno está mais preocupado em se mostrar, em exibir-se nas redes sociais do que dialogar, estar, sentir, compartilhar com os espaços, locais de viagem, ou mesmo conhecer pessoas e novas culturas. O tempo é seu inimigo, o Chronos que devora os filhos, também limita a quantidade de selfies por pontos turísticos (QSxPT>1.000), por isso é preciso pelear acelerando os passos, movimentando-se mais rápido, de modo que tempo e espaço não se mostram como um contínuo, mas o primeiro como sendo inimigo do segundo. 

A exposição fotográfica ‘Refúgio’, da fotógrafa araraquarense Marcela Campos, exibe uma interessante relação entre fotografia e viagens, entre o espaço nem menor ou maior do que o ser, fonte das posturas do eu-lírico do poeta Carlos Drummond de Andrade, mas, sim, como parte integrante, harmoniosa na sua pequenez ou grandeza. A consciência do espaço fotografado passa pela percepção do eu e da própria artista que mostra cenas cotidianas de cidades do velho continente como sendo “locais calmos”, belos, de refúgio. 

Marcela Campos expõe fotos em ‘Refúgio’ exibindo a sensibilidade do olhar fotográfico sobre pontos turísticos e cotidianos, ordinários e extraordinários. As cenas, os temas retratados mostram a integração do ser com o espaço-tempo. A disposição do ser e dos objetos nos quadros reflete a harmonia que pode ser exposta pela fotografia criada pelo olhar, sensibilidade, técnica do artista, criador por excelência, sensível por natureza, necessário socialmente. Logo, o selfie não “matou a fotografia”, apenas expressou posturas dos nossos estranhos tempos e expôs a cegueira da exibicionista massa curtida. Os refúgios para se enfrentar a “cegueira branca” estão expostos. Quem tiver olhos, veja, mas com as pálpebras abertas.

O roçar da língua em cabeças fechadas

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A língua é dinâmica, é um fato social responsável por intermediar não apenas a relação humana com o real, mas também as relações sociais. O convívio em sociedade é indispensável para o desenvolvimento da linguagem, uma capacidade inata do ser humano, assim como a sociedade depende de um sistema de significação e comunicação para se fundamentar, se desenvolver. Deste modo, pelo aspecto social da língua, há condições e lugares de produção de falas, discursos que podem ter prestígio, e o seu inverso, ou mesmo representar uma escolha ideológica. Eu resolvi escrever Machu Pichu ao invés de “Machu Picchu” no meu livro. 
 
Quando um falante escolhe uma palavra, dentro de um eixo vertical de possibilidades para combinar com outras horizontalmente, e linearmente, produzindo um discurso, deve levar em conta alguns fatores históricos, sociais, de local de fala, etc. Por exemplo, a palavra “denegrir” foi usada durante muito tempo no contexto escravista da sociedade brasileira colonial para depreciar a condição do afrodescendente em detrimento da condição do colonizador. Hoje, não utilizá-la é reconhecer a história brasileira, é não reproduzir erros e preconceitos do passado. 

No contexto latino-americano, há uma revolução em curso, um reconhecimento, uma valorização da identidade ancestral de diversos povos andinos como forma de resiliência e luta contra uma condição social, econômica e cultural imposta desde o processo de colonização. A “Revolução Pachamama” é contra o legado da colonização nos seus diversos aspectos danosos, inclusive linguísticos. Pois, a língua do colonizador é a de prestígio, é a norma, é a imposição, é a dominação. 

Escrever a palavra “Pichu” é estar com quem deveria ser o herdeiro de suas terras, é se orgulhar de uma identidade, preservar uma cultura frente ao colonizador, ao usurpador, ou seja, lutar contra não apenas uma opressão histórica de uma colonização, mas se posicionar contra agressores invisíveis, econômicos, sociais e culturais. Na língua do colonizador é escrita com dois “c”s; já na do morador, do trabalhador, do herdeiro por direito, não por condição, é escrita apenas com um “c”. 

Machu Pichu é explorada, “visitada” por visitantes de diversos locais todos os dias; menos pelos seus herdeiros que no máximo devem limpar e servir seja ao estrangeiro ou mesmo aos herdeiros dos exploradores. Eu resolvi escrever Machu Pichu ao invés de “Machu Picchu” por motivos linguísticos, históricos e sociais, mas também afetivos, pois com quem eu caminhava, compartilhava uma mesa, comia junto o alimentado retirado e dividido da mesma panela, assim o fazia. 

De início, é necessário roçar a língua para incomodar cabeças fechadas, abrir mentes. A norma, muitas vezes, não segue o uso, assim como a norma padrão não esconde a história das palavras. Palavras carregam significados com camadas construídas historicamente, condicionadas socialmente. Aqueles que se prendem apenas ao significante, na grafia das normas, reproduz, não questionam a origem do logos diretamente no verbo, na criação do discurso. Não desconstroem, parte importante do entendimento, da criação.